Seventh Lisbon Architecture Triennale

Like the invention of photography before it, muography promises a whole new science and art of visualization—one that records not the outward surfaces of things, but their deepest, most inaccessible interiors. By recording the path, speed, and velocity of cosmic particles known as muons, muography reveals unknown voids—rooms, tombs, caves, tunnels—inside mountains, pyramids, and cathedrals alike. Muons can also be used to inspect urban infrastructure, from hydroelectric dams and concrete freeways to the foundations of skyscrapers, suggesting a coming age of literal architectural transparency.

Geoff Manaugh and John Becker

Detetor Celestial: Pesar vidas a partir de baixo

Quando apareceu à nossa porta, pensei que sofresse de demência. Um homem idoso, de ténis e fato amarrotado, disse que o carro se tinha avariado. Olhei por cima do ombro dele, mas não vi nenhum carro. Além disso, a nossa pequena cidade ficava no meio do nada, numa zona remota do interior da Califórnia, a horas de distância até de uma localidade de pequenas dimensões. Por que razão teria ele conduzido até aqui?

Depois de pedir para usar o telefone fixo, dizendo que o telemóvel tinha ficado sem bateria, espreitou para dentro, como se estivesse a inspecionar a sala, e pareceu perder o fio à meada. Voltou a olhar para mim e disse: “Está tudo exatamente no mesmo sítio. Essa mesa está aí há mais de vinte anos.”

***

A cada instante, raios de elevada energia percorrem o espaço quase à velocidade da luz e chocam contra partículas no alto da atmosfera terrestre. Estas colisões geram outras partículas, sendo uma conhecida como múon. Os múons descem pelo céu não só atingindo a superfície da Terra mas também atravessando-a, muitas vezes a profundidades superiores a uma milha, antes de perderem a energia.1

Os múons atravessam-nos constantemente — passam pela nossa pele e pelos ossos, por carros e edifícios, por montanhas e relevos. São tão pequenos e movem-se tão rapidamente que têm pouca interação com a matéria. Nunca os sentimos, embora estejam dentro dos nossos músculos e ossos; nunca os vemos, embora atravessem as nossas pupilas e nervos óticos. 

Ainda que os múons estejam por toda a parte, são surpreendentemente poucos: a cada segundo, menos de dez múons atravessam uma área do tamanho da palma da mão, literalmente uma mão cheia. Com o equipamento adequado, no entanto, é possível registar a sua passagem, como a luz num sensor digital, o que significa que, com tempo suficiente, os múons podem ser utilizados para criar imagens. Tal como um raio-X, as chamadas  “muografias” revelam vazios de outra forma inacessíveis, mesmo no interior dos materiais mais densos. 

Os múons dão-nos uma forma de compreender o mundo, estudando aquilo que já o atravessou.

***

Nesse dia, quando se aproximou de mim, o meu pai reconheceu de imediato o homem — embora, como viria a descobrir mais tarde, ele nunca tivesse estado em nossa casa. A forma como conhecia a disposição da nossa mobília só viria a revelar-se anos depois.

O meu pai, eletricista, reformado havia menos de um ano quando bateram à nossa porta, explicou que ele e o desconhecido se haviam cruzado quase duas décadas antes, num trabalho complicado de instalação de novos cabos, condutas blindadas e um novo painel de comutação num pequeno edifício governamental na periferia da cidade. Não eram amigos, limitavam-se a cumprimentar-se na rua e a trocar umas palavras quando surgia algum serviço ocasional de assistência elétrica, e nada mais.

O homem chamava-se Wendell Brandt. Era físico. Nascido e criado na Alemanha, o que explicava o seu ligeiro sotaque, mas difícil de identificar. Brandt vivera na nossa cidade durante quase quinze anos. Era uma presença excêntrica, sempre sozinho, quer no supermercado, quer nos restaurantes locais, até se mudar de vez, antes de eu ser suficientemente crescido para me lembrar dele.

Ou será que não? “Esteve na cidade todo este tempo?”, perguntou o meu pai com alguma cautela.

“Não, não”, respondeu Brandt. “Voltei para ver tudo de novo. Estou doente.”

Já nos anos 1950, Eric George, um físico britânico que na altura trabalhava na Austrália, tinha utilizado a muografia como técnica para medir camadas de rocha e gelo sobre uma mina a sudoeste de Camberra.2 Mas o primeiro grande êxito deste campo chegaria uma década mais tarde, em 1968, quando Luis Alvarez, professor de física na Universidade da Califórnia, em Berkeley, levou uma equipa de investigadores ao Egito. Aí, instalaram um detetor de múons numa pequena sala sob a pirâmide de Quéfren.3

A intuição de Alvarez era a de que, se a equipa conseguisse medir o número e a velocidade dos múons que atravessavam a pirâmide, e depois comparar esses resultados com a planta dos vazios internos já conhecidos da pirâmide, talvez fosse possível perceber se existiam outros espaços ainda por descobrir. Poderiam ser túneis ainda desconhecidos ou até câmaras funerárias secretas. Em teoria, tudo isso deveria aparecer numa muografia.

Durante várias semanas, Alvarez e a sua equipa viveram e trabalharam nas proximidades, verificando regularmente a máquina, ajustando o emaranhado de cabos de energia, certificando-se de que o dispositivo funcionava. Como teria sido habitar o silêncio de uma pirâmide com 4.500 anos, à procura de câmaras escondidas no maciço de rocha acima, à espera de partículas vindas do espaço? 

A técnica funcionou — embora Alvarez e a sua equipa não tenham encontrado indícios da existência de salas desconhecidas. Essa prova de ausência só viria a ser confirmada em 2017, quando o mesmo método, com máquinas mais potentes e software mais avançado, revelou, de facto, um vazio até então não identificado no interior da Grande Pirâmide de Gizé.4 A muografia ficava assim estabelecida como um meio técnico de penetração no interior de grandes maciços de rocha e alvenaria.

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Nesse dia, o meu pai ofereceu-se para ajudar Brandt com o carro, um gesto generoso que acabou por se transformar numa operação de várias horas e que envolveu, a certa altura, uma viagem de ida e volta de quarenta milhas até à oficina mais próxima, para a qual me convidaram a ir no banco de trás. A conversa entre os dois escapava-me completamente e lembro-me de muito pouco do que foi dito. Era demasiado jovem para me interessar pelas histórias de vida dos outros e, por isso, não fiz nenhuma das perguntas que faria agora. Lamento essa cegueira, a minha incapacidade de perceber quão profundas são, afinal, as vidas dos estranhos.

Dez anos mais tarde, quando estava a fazer o doutoramento em história da arquitetura na Universidade de Chicago, é que a minha obsessão pelo trabalho de Brandt começou verdadeiramente. Nessa altura, claro, ele já tinha morrido do cancro no pâncreas que o consumia quando apareceu à nossa porta naquele dia, e nunca lhe pude fazer perguntas diretamente.

Brandt, de olhar curioso e introspetivo, esteve muito perto de não se tornar físico, viria eu a descobrir. Inscreveu-se inicialmente na Technische Universität, em Berlim Ocidental, em 1978, para estudar arquitetura, mas, muito antes de concluir a licenciatura, começou a sonhar com outras áreas de estudo. Ao terminar o curso, candidatou-se ao programa de física da mesma universidade e foi precisamente o seu projeto de tese que acabaria por moldar o resto da sua vida, levando-o, por fim, à nossa remota cidade na Califórnia.

Em 1983, Brandt começou a estudar os múons. Viria mais tarde a dizer que a ideia lhe surgira no momento em que soube do trabalho de Alvarez no Egito: se os múons podiam ser usados para obter imagens do interior de grandes estruturas em descobertas arqueológicas, também poderiam ser usados para fins de espionagem.

Brandt acreditava que os múons podiam oferecer uma forma de observar Berlim Oriental a partir de baixo. Um detetor de múons suficientemente profundo, instalado o mais próximo possível do Muro de Berlim, permitiria captar os múons que atravessassem a zona oriental e, assim, mapear a infraestrutura subterrânea do lado soviético. Túneis, bunkers e até mesmo depósitos de armas e armazéns logísticos poderiam, segundo ele, ser localizados. Comparando as imagens obtidas com mapas já conhecidos da área, recorrendo às plantas existentes dos edifícios, seria possível deduzir a presença ou a construção recente de instalações subterrâneas que, de outra forma, ficariam ocultas. 

Em quatro dias frenéticos, Brandt redigiu uma proposta detalhada exatamente para isso: uma rede abrangente de espionagem de múons, construída em locais subterrâneos secretos ao longo do Muro de Berlim. Chamou “Projeto Horus” a essa visão de olho de múon omnividente sob a superfície da Terra, em homenagem ao deus egípcio — uma referência subtil ao trabalho de Luis Alvarez antes dele. Num excesso de confiança, Brandt decidiu não submeter a sua proposta ao governo alemão, como inicialmente previra, mas sim à Fundação Nacional da Ciência (National Science Foundation) dos Estados Unidos. Claro que parecia condenado ao fracasso desde o início: mais uma forma de divulgar o seu nome a financiadores influentes na esperança de que, no futuro, uma candidatura mais modesta pudesse vir a ser aceite. 

Para grande surpresa de Brandt, na primavera de 1987, o financiamento foi aprovado. Com financiamento adicional não divulgado, mas excecionalmente generoso, do Departamento de Defesa, Brandt supervisionou a construção disfarçada de uma estação protótipo de espionagem por múons na cave de uma igreja abandonada, não muito longe do posto de controlo fronteiriço na Heinrich-Heine-Strasse.

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O que Brandt não previra foi que o projeto teria uma carga emocional. Cada exposição muográfica demorava mais de um mês a ser produzida, obrigando-o a esperar semanas a fio para que algo coerente surgisse nos dados, e o trabalho convidava naturalmente à contemplação. A primavera dava lugar ao verão; o verão transformava-se no outono. À medida que uma imagem se tornava duas, depois três, depois meia dúzia, Brandt começava a pensar nos amigos e familiares que perdera por causa do Muro. Construído quando ele ainda era criança, o Muro separara entes queridos sem qualquer critério, com mais de metade da família Brandt a ficar isolada no lado oriental. 

Num caderno de projeto que obtive através de um pedido ao abrigo da Lei da Liberdade de Informação dos EUA, descobri que Brandt tinha usado várias páginas como diário pessoal, refletindo sobre a sua experiência no desenvolvimento de técnicas muográficas em Berlim. As notas — curiosamente escritas em inglês, como se esperasse que os seus patrocinadores americanos um dia as lessem — revelavam uma curiosidade científica que se tornava gradualmente mais filosófica. A possibilidade de os múons poderem captar imagens de instalações militares estratégicas deu lugar à especulação sobre as famílias que viviam em apartamentos próximos, sobre a vida tranquila dos compatriotas alemães separados pelo Muro — pessoas que, acreditava ele, nunca iria conhecer pessoalmente. Tudo o que saberia sobre elas eram aquelas sombras e manchas, gravadas por partículas cósmicas em dispositivos eletrónicos secretos nas profundezas.

Entre números escritos à mão, páginas de equações e alguns esboços técnicos, surgiam notas abertamente nostálgicas sobre os seus próprios familiares distantes que, do seu ponto de vista, agora viviam numa espécie de Alemanha paralela, uma realidade estranhamente semelhante que se ramificara da sua. Onde estarão agora? Perguntava-se. Algum membro da sua família alguma vez aparecera, ainda que vagamente, mesmo que brevemente, nas imagens obtidas? Seriam os múons capazes de medir não apenas edifícios, mas também o peso e a importância de uma vida individual?

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À semelhança de Alvarez, Brandt conseguiu demonstrar que a sua ideia funcionava, mas, tal como ele, as imagens não revelaram nada de inesperado ou de empolgante. A sua qualidade era discutível, a resolução demasiado baixa. Os patrocinadores de Brandt esperavam algo tão nítido quanto um raio-X médico, mas o que obtiveram parecia mais uma fotocópia de uma planta desenhada de memória. Seria isto um problema da própria tecnologia, questionava-se Brandt — um limite inerente à muografia, ou seria uma questão de tempo de exposição? Se pudesse passar anos no subsolo, sob as ruas de Berlim, conseguiria captar imagens de quartos individuais? E se tivesse décadas, poderia detetar a presença de um único estranho? 

Ainda assim, Brandt convenceu os seus financiadores americanos de que a muografia funcionava em escala urbana. No final de 1988, foi-lhe aprovada uma nova bolsa, mais modesta; a equipa do laboratório foi reduzida e, pouco depois, Brandt viu-se verdadeiramente sozinho, continuando o projeto por mais um ciclo.

Quando o Muro caiu inesperadamente, em novembro de 1989, Brandt estava num hotel em Washington D.C., a participar em reuniões com os seus financiadores federais. Após a notícia ser divulgada, permitiram-lhe regressar mais cedo a casa para reencontrar amigos e familiares há muito afastados nas ruas de uma Berlim reunificada. Menos de duas semanas depois, ficou claro que todo o Projeto Hórus seria desmantelado e que os equipamentos, os dados e até mesmo os cadernos de laboratório de Brandt seriam entregues ao governo dos EUA para futura consulta e estudo. Os acontecimentos tinham tornado irrelevante a pertinência estratégica da experiência, cujo custo deixava de ser justificável.

Do ponto de vista científico, porém, e segundo os objetivos do próprio projeto, Hórus foi um sucesso. Os Estados Unidos tinham conseguido obter imagens, de forma clandestina, de cerca de quarenta edifícios em Berlim Oriental. Embora a resolução fosse tão baixa que, por vezes, era difícil distinguir uma estrutura da outra, a espionagem subterrânea com recurso a partículas cósmicas através de uma fronteira internacional, em plena zona de conflito, tinha-se revelado não apenas possível, mas, segundo os padrões militares, barata.

Seja por humor negro ou simples preguiça burocrática, alguém no Departamento de Defesa agendou o fim do contrato de arrendamento da igreja perto da Heinrich-Heine-Strasse para o dia de Natal. Brandt passou a manhã de Natal sozinho na cripta, mas não deixou qualquer registo sobre o que estaria a pensar.

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Brandt dedicou a década de 1990 a ensinar física numa Alemanha renascida, enquanto trabalhava no que, na altura, parecia ser um projeto irremediavelmente quixotesco de muografia avançada. Recorreu aos seus anos de formação em arquitetura e à colaboração de técnicos da célebre indústria cinematográfica de Berlim para conceber e construir um edifício experimental com o único objetivo de ser visualizado a partir de baixo através de múons. 

A Casa de Calibração de Múons, como lhe chamou, com sessenta e quatro divisões meticulosamente medidas e um poço de elevador simulado, foi construída com materiais de peso e densidade previamente conhecidos. A estrutura foi erguida num antigo armazém no bairro de Prenzlauer Berg, então em acelerado processo de gentrificação. Detetores de múons de diferentes dimensões e potências foram instalados em caves revestidas a chumbo, a profundidades métricas rigorosamente calculadas. As próprias divisões estavam dispostas em grelhas especiais para criar feedback positivo ou negativo com os espaços dos outros andares. Também foram instalados carris pesados que permitiam deslocar enormes carros sobre rodas e transferir obstáculos de sala em sala.

Ao longo de nove anos, Brandt e investigadores visitantes produziram milhares de muografias para testar a sensibilidade e os limites de determinados instrumentos. Materiais densos montados em carris — de um peso tão extremo que teria causado o colapso de um edifício normal — eram deslocados de um ponto a outro, por vezes de forma contínua, a velocidades tão lentas como um centímetro por dia, para observar como surgiam nas imagens. Um dos detetores foi deixado em funcionamento durante todo o ano de 1997 para registar literalmente todos os movimentos dentro da estrutura. Objetos de diferentes densidades foram colocados uns sobre os outros de modo a explorar os efeitos da sombra e interferência. Brandt queria saber se era possível construir contramedidas muográficas — obstáculos, disfarces, camuflagem, falsos positivos — e se, assim, era possível esconder algo da visão muográfica. Como impedir que algo projete uma sombra na Terra?

Aos olhos humanos, a casa de calibração de Brandt parecia um cenário teatral; para os detetores de múons, no entanto, parecia uma rede de portões, poros e aberturas através dos quais partículas celestes rugiam incessantemente. O resultado foi um corpo de imagens e dados ainda hoje considerado por muitos físicos como o padrão de excelência na calibração muográfica.

Brandt percebeu que, do ponto de vista dos detetores, as cidades não passavam de nuvens de paredes e fundações, com as vidas humanas a moverem-se por cima delas como tempestades. Os poços dos elevadores surgiam nos dados como tornados, grandes gargantas de espaço a serpentear para cima, à medida que objetos do tamanho de quartos subiam e desciam. Imaginava uma muografia de mil anos, uma precessão de mil anos de ruas, quartos e cidades a aparecer nos registos. Brandt parecia acreditar que a superfície da Terra era, de certo modo, uma extensão lenta do céu: translúcida, sem peso, à deriva. Para um observatório a dez metros de profundidade, escreveu ele, “somos todos astronomia” — as nossas vidas quotidianas, as nossas casas e estradas, todos acontecimentos celestes — tão parte do céu como o tempo ou as estrelas.

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O terreno onde a casa de calibração foi construída acabou por ser vendido, e o edifício foi demolido para dar lugar a um novo complexo habitacional. É provável que tenha sido a obra arquitetónica mais precisamente medida do século XX: um edifício examinado até ao último milímetro, registado e regravado ao longo de anos.

Nenhuma imagem produzida naquele local foi publicada fora de revistas técnicas — e, mesmo assim, apenas cerca de uma centena chegou a ver a luz do dia. Já perto do final da minha investigação de doutoramento, recebi de um antigo colega de Brandt uma série de PDFs que continham quase cinco mil exposições muográficas. Variavam do quase cómico — uma grelha de divisões claramente definida, com um único objeto de grande massa colocado no centro matemático do primeiro andar — a situações tão espacialmente complexas que mais pareciam um quebra-cabeça, um labirinto diabólico apenas possível de decifrar através de processamento avançado de software.

Mais uma vez, a relação de Brandt com a experiência não era o que eu esperava. Em e-mails que enviou a antigos colegas, e que só consegui ler após muitos meses de insistência, Brandt escreveu que ficava sozinho no edifício, entre os detetores — “os meus detetores”, como lhes chamava —, num estado, que, me soava meditativo. Contava que ia muitas vezes de propósito aos domingos, não por motivos religiosos, mas para evitar cruzar-se com alguém. Por vezes deitava-se no chão, enquanto os múons caíam em redor como chuva, e contemplava as salas acima, os objetos cuidadosamente posicionados, as dimensões rigorosamente conhecidas de cada espaço — e a ausência total de seres humanos.

Levou-o de novo a refletir sobre o desafio de apreender o fulgor e o detalhe de uma vida individual. Para um homem aparentemente obcecado em passar tempo sozinho, estava igualmente obcecado com a vida dos outros. Para os múons, ele sabia, a matéria era facilmente atravessada; mas, para Brandt, os estranhos pareciam impenetráveis. 

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No outono de 2003, Brandt chegou a Los Alamos, no Novo México, integrando uma vasta equipa de físicos do Laboratório Nacional de Los Alamos. O objetivo que o levara até ali era explorar se os múons poderiam ser usados para mapear estruturas geológicas de grande escala, como caldeiras e vulcões.

Embora o método só viesse a ter verdadeiro sucesso em 2007 — quando uma equipa japonesa liderada pelo físico Hiroyuki Tanaka conseguiu captar imagens da estrutura interna de um estratovulcão chamado Monte Asama —, o grupo de Los Alamos fez progressos. Brandt, em particular, teve um avanço conceptual, talvez impulsionado pelo seu pedido especial para trabalhar sozinho, num local mais desafiante. Enquanto os restantes cientistas americanos colaboravam em conjunto na Caldera de Valles, um supervulcão extinto junto ao Laboratório Nacional, Brandt passou a maior parte do tempo no distante campo vulcânico de Potrillo, perto da fronteira entre os EUA e o México.

No Novo México, supervisionou uma rede de detetores de múons instalada sob uma área de vulcões extintos com mais de quatrocentas milhas quadradas. Câmaras magmáticas, tubos de lava, cavernas e túneis interligados: as imagens de Brandt revelavam vislumbres fascinantes de cada um deles. Mas, enquanto estava lá, tornou-se obcecado por outros problemas geológicos não relacionados com características vulcânicas fixas, mas com eventos em movimento, fenómenos que a muografia, teoricamente, não deveria ser capaz de detetar.

Foi esta a questão que o levaria à minha pequena cidade na Califórnia, uma localidade notável apenas por se situar diretamente sobre a falha de San Andreas.

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Brandt chegou aqui pela primeira vez na primavera de 2008, liderando um projeto para mapear uma falha ativa usando muografia. Tanto em Berlim como no Novo México, percebeu que eventos espaciais subtis podiam ser registados com a utilização de múltiplos detetores. A perspetiva de captar um processo dinâmico de grande escala — por exemplo, observar uma falha a abrir-se provocando um terramoto — deu vida à sua próxima fase de investigação.

A nossa cidade era famosa entre os geólogos, que vinham ao longo do ano em excursões para fotografar as placas de trânsito que assinalavam o caminho de San Andreas, que atravessa as nossas casas e ruas como um rio subterrâneo. Na década de 1970, o Serviço Geológico dos Estados Unidos chegou a concluir que a região estava de tal forma na iminência de um grande terramoto que equipou a cidade com tantos sensores sísmicos quanto os subsídios permitiam. Se o grande terramoto finalmente acontecesse, acreditavam, estariam a observar, preparados — e, podendo recuar através de anos de dados, talvez descobrissem sinais de alerta anteriores, até então despercebidos, do que estava para acontecer. Continuam à espera; o terramoto ainda não aconteceu.

Como era seu hábito, porém, Brandt tinha as suas próprias ideias. O laboratório que construiu na nossa cidade foi crescendo, ao longo dos anos, em dimensão e complexidade. Matrizes circulares de deteção de múons compostas por dezenas de detetores interligados foram instaladas em salas subterrâneas de vários níveis, protegidas por paredes de chumbo concebidas para resistir a interferências. Corredores entrelaçavam-se de um lado ao outro da falha e recuavam novamente. Sem que soubéssemos, infiltraram-se profundamente sob a nossa cidade, sob as nossas ruas, escolas e casas.

O meu pai contou-me que apenas viu a sala elétrica do laboratório, uma estrutura utilitária em blocos de cimento do tamanho de uma casa normal, situada na extremidade norte da cidade. Mas, durante uma visita ao arquivo da Fundação Nacional da Ciência, já na fase final da minha investigação de doutoramento, consegui recompor o esquema do labirinto de Brandt. Se a Casa de Calibração de Múons em Berlim parecera ambiciosa para a época, esta instalação superava-a: era um verdadeiro aglomerado de salas, corredores e equipamentos eletrónicos de alta tecnologia. A partir de um corredor de deteção com a extensão aproximada de quatro campos de futebol, abriam-se dez perfurações que desciam cerca de 180 metros, cada uma equipada com um detetor experimental, formando um autêntico lustre de instrumentação colocado diretamente no caminho da falha. 

Ao longo de mais de quinze anos a registar múons, Brandt procurou documentar até o mais ínfimo movimento de uma placa tectónica contra a outra — um milímetro aqui, outro ali; as mais pequenas fendas ou tensões em crescimento. As imagens que obteve eram diferentes de tudo o que eu já vira: em vez das linhas claras e geométricas de uma estrutura arquitetónica, a falha assemelhava-se a uma aurora boreal a crepitar sob a terra, uma forma soprada pelo vento que ondulava como uma cortina. Era de uma beleza inquietante.

***

Havia algo mais nas imagens. Com dezenas de detetores apontados para cima não apenas para os múons mas também para a nossa cidade, Brandt conseguiu distinguir de imediato as formas emergentes das casas e edifícios, quadrados e retângulos vagamente visíveis acima da fenda irregular da falha.

Ao longo de quinze anos, Brandt dispunha de tempo. Descobriu que era possível captar imagens específicas de casas, até ao detalhe de cada divisão, até mesmo do mobiliário dessas divisões — e, para seu espanto, até a pequenas manchas difusas que pareciam seres humanos. Um homem numa poltrona a ver televisão todas as noites durante décadas, sempre no mesmo lugar, acaba por deixar uma sombra. Os móveis da sala de jantar da minha família projetavam uma sombra. As vidas dos meus pais ficaram registadas em múons.

“Somos todos astronomia”, escreveu Brandt certa vez. Levou essa ideia ainda mais longe num relatório excêntrico após o fim do projeto que, à sua maneira habitual, misturava o científico com o pessoal. “Quanto pesamos?”, escreveu. “Quanto pesamos, de facto?”

Quando apareceu à nossa porta naquele dia, já um homem idoso, a morrer de um cancro que fora demasiado tarde diagnosticado, a sua sombra difusa, mas fatal, algo que deveria ter sido detetado em radiografias anos antes, Brandt queria contemplar, uma última vez, o mundo que tinha observado de baixo. 

***

Todos nós projetamos sombras na Terra. Deixamos vestígios nas profundezas. Coisas caem do céu e atravessam-nos constantemente. Alteramos e transformamos esses mensageiros subtis, desviando-lhes o caminho e a velocidade: depois de nós, por nossa causa, através de nós, o mundo ganha um novo significado pelo que eles revelam. Mas, quando nós próprios partimos — residentes de um planeta que jamais conheceremos por completo, habitantes de cidades e casas que nunca mediremos na sua totalidade — é tarde demais para ver como alterámos aquilo por onde passámos.

Footnotes

  1. Para uma introdução útil, embora técnica, aos múons e à muografia, ver Lorenzo Bonechia, Raffaello D’Alessandro e Andrea Giammanco, ‘Atmospheric muons as an imaging tool’, Reviews in Physics 5 (2020). Para uma entrevista com Raffaello D’Alessandro sobre a sua investigação utilizando muografia para estudar grandes obras de arquitetura, ver Geoff Manaugh, ‘A tiny particle can travel through concrete. It could save many lives’, Financial Times Magazine (7 de setembro de 2022).”
  2. Eric George, “Cosmic Rays Measure Overburden of Tunnel,” Commonwealth Engineer (1 de julho de 1955).
  3. Luis W. Alvarez, Jared A. Anderson, F. El Bedwei et al., “Search for Hidden Chambers in the Pyramids: The Structure of the Second Pyramid of Giza is Determined by Cosmic-ray Absorption,” Science 167, no. 3919 (6 de fevereiro de 1970): 832–39.
  4. Kunihiro Morishima et al., “Discovery of a big void in Khufu’s Pyramid by observation of cosmic-ray muons,” Nature 552 (2017).

Geoff Manaugh and John Becker

Geoff Manaugh is a Los Angeles-based freelance writer regularly covering topics related to architecture and design for publications such as The New York Times Magazine, MIT Technology Review, WIRED, The Atlantic, The New Yorker, and many others. His 2016 book, A Burglar’s Guide to the City, on the relationship between crime and architecture, was a New York Times bestseller, and his 2021 book, Until Proven Safe: The History and Future of Quarantine, written with Nicola Twilley, was an NPR, Guardian, Financial Times, and Time Magazine book of the year. In 2023, his short story “Ernest” was adapted into the hit Netflix film We Have A Ghost. Manaugh has taught graduate design studios at Columbia GSAPP, USC, and UC Berkeley, and has exhibited twice, in partnership with Smout Allen, at the Venice Biennale of Architecture. Since 2014, he has collaborated with John Becker to design and publish speculative architectural narratives. He is also the author of BLDGBLOG, launched in 2004.

For over 15 years, John Becker has produced visuals for world-renowned works of architecture, designed digital sets, and produced internationally-recognized real estate marketing campaigns as the Creative Director at MARCH. Drawing from the cycle of life and the passage of time, Becker has molded his career as a designer and visual narrator around these concepts, illustrating novel details of a world yet to be. Each project is carefully matched with the most fitting form of representation, whether it be photography, graphite, pen and ink, digital drafting, CGI, or AI. In 2023, he founded Wrot, a design and visual research studio to further development of his visual language. He also maintains an ongoing collaboration with author Geoff Manaugh, resulting in a collection of speculative projects.

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