O peso, elemento central de ´How heavy is a city?´, é um dos maiores elefantes nesta sala pesada, perturbada e distópica chamada Antropoceno, criada pela humanidade para si e para os outros seres. É inquestionável que houve uma redistribuição global e maciça do peso sobre a superfície da Terra, causada por todos os materiais que foram, e continuam a ser, extraídos, transformados, produzidos, reaproveitados e rearranjados por e para todo o tipo de atividades humanas.
A forma como as pessoas vivem, circulam, consomem, produzem e poluem tem inúmeras consequências para a composição e estabilidade do planeta. Algumas delas são visíveis — e, de facto, o Antropoceno é também uma questão estética —, enquanto outras são menos visíveis. É o caso do peso, nas suas diferentes manifestações.
Os espaços urbanos podem ser vistos como grandes zonas sacrificiais, concentrando habitações e atividades humanas e consolidando a ideia da natureza como uma expressão distante e exótica da vida. Ao mesmo tempo, são incubadoras de novas possibilidades e lugares de teste para conceber de outra maneira. Paralelamente, se considerarmos que o peso não é apenas a expressão da massa de um corpo, mas também a força descendente que esse corpo exerce, pelo simples facto de existir, e que a pressão que é capaz de gerar pode ter um efeito global no planeta, como é que a pressão pode atuar como agente de transformação do nosso mundo presente-futuro?
Filipa Ramos
Escritora e curadora. A sua investigação aborda a relação entre arte e ecologia. É docente no Instituto de Arte da Academia de Arte e Design FHNW, em Basileia. Foi curadora da representação catalã na 60.ª Bienal de Veneza, em 2024, intitulada BESTIARI. É co-fundadora da plataforma online de cinema de artistas Vdrome. Dirige o festival de arte e ciência The Shape of a Circle in the Mind of a Fish com Lucia Pietroiusti, com quem também foi curadora da exposição Songs for the Changing Seasons para a primeira Klima Biennale Wien (2024) e Persones Persons (8.ª Bienal de Gherdëina, 2022). Em 2021, foi co-curadora da exposição Bodies of Water, da 13.ª Bienal de Xangai. Ramos foi editora-chefe da e-flux Criticism (2013-20), editora associada do Manifesta Journal (2009-11) e colaborou na Documenta 13 (2012) e 14 (2017). Editou Animals (Whitechapel Gallery/MIT Press, 2016). O seu próximo livro, The Artist as Ecologist (Lund Humphreys, 2025), discute as formas como os artistas contemporâneos abraçam o ambientalismo.