Sétima Trienal de Arquitectura de Lisboa

A primavera silenciosa de Rachel Carson expôs os perigos dos pesticidas, despertou a consciência ambiental e deu início ao movimento ecológico moderno à escala global. Hoje, esse silêncio também está ligado à intensificação dos incêndios florestais, ao silêncio das florestas outrora cheias de vida, ao estrondo do gelo a derreter no oceano e aos rugidos das tempestades que assolam as comunidades costeiras.

O som das alterações climáticas e da extinção ressoa tanto no silêncio inquietante como no ruído extremo das operações do capitalismo extrativo, seja em terra ou no mar. A ausência de sons naturais é um lembrete assustador dos ecossistemas perdidos, mas é também um apelo urgente para proteger aquilo que ainda resta.

Soundwalk Collective e Patti Smith

Correspondência

Stephan Crasneanscki e Patti Smith, “Cry of the Lost / Prince of Anarchy,” 2024. Detalhe da mesa de luz, técnica mista. Cortesia dos artistas. 

Crianças de Chernobil

Marchámos nos nossos casacos negros
A varrer o tempo, a varrer o tempo
Na floresta vermelha
Emergindo para enfrentar o dia
Rosa de iodo
Molhados, desgrenhados, um pouco perdidos
Adornados de flores
Radiantes, radioativos
Seguindo um rasto que de alguma forma conhecíamos

Chuva, que já não é chuva
Lágrimas, que já não são lágrimas
E o graal, oh, o graal
Estava tão perto
Selado em folha metálica
Envolto em plutónio

Deambulámos por florestas estranhas
Não havia um ser vivo
Senão o zumbido das moscas
E fadas maliciosas
Que dançavam aos nossos pés
Galhos estalavam-se-nos no rosto
O nosso reino
Atrás de uma vedação de arame

Tivemos a nossa contaminação
Coroações
Lutámos nas pedreiras
Polimos mármores
E ajoelhámo-nos e disparámos por despojos
Nos nossos círculos fervorosos
Erguemos os nossos acampamentos furiosos
As nossas tendas, pontuadas de estacas
Talhadas a canivetes
Pequenas raposas a sondar a terra endurecida
Amaldiçoando o fundo do vale
Por nos amolecer

Colhemos centeio
Enchemos sacos
Fizemos almofadas para os nossos homens
Éramos soldados sem guerra
Esprememos o sangue
De camas ensopadas
Cobrimos as cabeças decepadas
Dos mártires
Equilibrámos os baldes
Cheios até acima
E não vimos nada
E vimos tudo

Os nossos navios exibiam obscenidades
Rabiscadas em velas de pergaminho
A flutuar por rios analfabetos
Tranformados em poças
De lama e água da chuva
Soprámos cânticos de louvor
Em cornos de animais sagrados
Assobios, confissões
Orações adolescentes
Tecidas em tapeçarias
De jardins enclausurados

Stephan Crasneanscki, Chernobyl, 2024. Fotograma do filme. Cortesia do artista.

Já não temos mãe
Os votos irromperam
Com uma nova violência
Sem rancor
Salvo para nascer
Contaminados por um pó
Cintilante de tal estranheza
Que chorámos de alegria
Uma luz azul era projetada
Do cume do ser
Subimos as escadas
Para um céu mais azul
Ferido por serpentinas
Sangrando o vento
Saboreámos o espetáculo
E então desvaneceu-se
Mas nós já tínhamos partido

Possuíamos um novo fulgor
O orvalho escorria-nos do nariz
Ostentávamos uma pele resplandecente
Despojando-nos dela sem um suspiro
Erguemos as nossas lanternas
E alguns pareciam caminhar
Iluminados pela própria luz
Aproximámo-nos da nossa nova espécie
As nossas botas regulamentares, de língua de cão
Os vestidos de arminho e lã
As roupas festivas tecidas por cegos
Pois o nosso era um país de órbitas
Que estavam vazias
Olhos vazios e, ainda assim, por dentro 
Podia ler-se todas as nossas esperanças infantis
Cada um de nós, com a sua história
A sua própria vida doce
Talhada no tecido de uma luta imóvel

Chegou a hora, ouvimos o apelo
Chegou a hora, trajamos os casacos negros
A varrer o tempo
A varrer o tempo
É hora de dormir
E em breve romperemos
Dos nossos casulos de traça
Vivos na noite
O céu manchado
De estrelas que já não vemos
Um credo de criança
Bordado em lenços

Deus não nos abandona
Somos tudo o que Ele conhece
Não devemos abandoná-Lo
Ele somos nós
O éter dos nossos atos

Escuta, escuta
O apito do vagabundo chama
A varrer o tempo, a varrer o tempo
Dormimos, conspiramos
Pressionamos a corda vibrante
Adormecidos por mil anos
Para depois despertarmos felizes novamente

Plutónio 2 3 9
Protões 94
Neutrões 1 4 5
Modo de decaimento / Decaimento alfa
Torres de comunicação
Fluxo de água 1 7 2
Nível da água +25
Reator 4
Modo de decaimento, não calculado
14 menos 22, Ponto 2, ponto 3
5 % de leitura de radiação
15 traço 4 5 0
Reator 5 / 6 8
5000 ponto 0 0 - 16, 15, 10

Todos os pássaros cantavam
Na noite em que dormiam
Todos os pássaros gritavam
Nada restava
Cada um deles
Na sua caminha
Cada um com uma coroa

Na pequena cabeça 
Todos os pássaros cantavam
E cada nota
Dava à luz o nada
Pois tudo se foi
Por mil anos
E um milhão de lágrimas
E mil respostas
Num chão vazio
Há rosas sob os pés
Que não se podem cheirar
Há frutos na vinha
Que não se podem comer
E foram para a cama com fome
E com fome dormirão
Por mil anos

Птицы песни пели дети ложились спать
Маленьĸие дети в маленьĸую ĸровать
Каждый в ĸроватĸе дремлет своей
Каждый в ĸороне на голове
Птицы ĸричали ĸричали
А звуĸи молчали молчали
Там где на тысячу лет мир исчез
На миллионы слез
На тыщу ответов в осĸолĸах на голом полу
Тронуть нельзя под ногами розы
Есть нельзя виноград на лозах
Они голодными легли в ĸровать
Голодными и будут спать
Всю тысячу лет
Тысячу лет
Свет теперь притуши
Пальчиĸ на фитилеĸ
Пальчиĸ светит горит
А малыш будет спать
Тысячу лет
Тысячу лет
А птицы будут петь
Тысячу лет

Stephan Crasneanscki, The Acolyte, 2025. Imagem do filme. Cortesia do artista. Contém imagens originais do filme «Andrei Rublev» (1966), de Andrei Tarkovsky.

O Acólito, O Artista e a Natureza

A visão que era o meu poder
A fome e o banquete
Que desapareceram com o tempo
Já não preciso 
Sou o silêncio e a flecha
A musa, a semente do pai
O pardal mutante
A criança que não fala

E o sangue da sua mente
Foi espalhado pelas paredes
Todo o seu ser negado
As palavras e o dedo do Senhor

Ele era como o filho de Jonas
Fugindo da sua vocação sagrada
Clamando ao seu Deus
Deixa-me ser, deixa-me simplesmente viver
Deixa-me observar ileso
Deixa-me ver com olhos puros
Que não se voltam para dentro
Deixa-me ser um vagabundo que reza
Que toma um pedaço de pão
Observando a humanidade
Observando a nudez

As paredes da igreja
Tinham sido cuidadosamente preparadas
Revestidas de camadas de cal e chumbo
Brancas como os flocos que caíam
À espera da Santíssima Trindade
O acólito, o jovem fundidor de sinos
Cheio de alegria, antecipando
O trabalho do grande mestre
Não o tinha visto
Mas sentira-o
E então, ouviu
A voz terrível no vento

E estremeceu
Ouviu o artista aproximar-se
E o som dos seus passos
Quebrando o terreno gelado
A voz da criação
Rasgava o coração do artista
E gritou
E o acólito virou-se
Ao ouvir o grito do mestre, ficou petrificado

Ouviu os suspiros arrogantes
Ouviu o artista
A contorcer-se e a girar no seu próprio destino
E as veias da sua mente também se retorciam

O acólito ficou junto à porta
Enquanto o artista entrava no espaço sagrado
Ficou comovido com a brancura das paredes
Que tinham sido preparadas com tanto cuidado
Que nada mais desejava
Do que mantê-las livres do seu toque
Sem adornos da sua mão
Nem sangue da sua mente
Espalhado sobre elas
Desejava que pudessem permanecer
Como colinas imaculadas
E amplos horizontes
Cobertos de neve virgem

O artista clamou pela liberdade
E o acólito que nada sabia de si mesmo
Lançou-se nos braços da natureza
Chamando-o como uma mãe chama

A criança que não fala

Tu, rapaz
Do que tens medo?
Tira os sapatos pesados
Estão muito sujos
Tens fome?
Não tens língua?
Trarei pão para ti
Esta noite dormirás no feno
E acima de ti
Haverá oito luas crescentes
O barro espesso nos teus sapatos
É cinzento e maleável
Poderia fazer uma tigela com ele...
Poderias trazer-me um pouco?
Dar-te-ei um lugar para dormir
E rezarei pelo teu pai
Deixa-me ver as tuas mãos
Estão sujas, calejadas e fortes

Quem sou eu? Sou a natureza

Uma vez, ouvi tudo
Vagueei pela floresta
Comi da serpente branca
E ouvi a voz de todos os seres vivos
Os meus olhos eram duas esferas brilhantes
Que arranquei e lancei
Pelo chão da floresta
E, cego, escavei profundamente
À procura do barro que formou a pomba
Vem, vem ver, repousa na minha mão
E não respira

Respiro na boca dos pássaros
Mas tu, jovem acólito
Darás esperança ao povo
Na forma de um sino
Ajoelha-te, conhece-te a ti mesmo e cava
Cava fundo na terra
Arranha nas profundezas
Que, afinal, não são profundas

Bebe do rio derretido, ele é teu
Bebe da água
Ela formará o cálice da vida
Bebe do âmago do teu ser
Bebe do tear dourado
Bebe das luas crescentes
Bebe das vestes, que são as tuas
Bebe dos teus pés descalços
Bebe do lamento e do vento

E tu, tu, artista
Monge silencioso, a vaguear nas sombras
Tu, inclina a cabeça
Inclina a cabeça
Inclina a cabeça
Três vezes o senhor foi negado

Não negues mais
Bebe da tua alma vibrante
O espinho e a flor
Bebe do cálice da vida
A visão que era o teu poder
Artista, nasceste, não negues mais

Fundidor de sinos, nasceste, não chores mais
Fundidor de sinos, não mintas mais

Sou a curva do som
Sou a porta aberta

Fundes sinos
Pintas ícones

Fundes sinos
Pintas ícones

Não chores mais
Não negues mais

Fundes sinos
Pintas ícones

Fundes sinos
Pintas ícones

Stephan Crasneanscki, Medea, 2025. Fotograma do filme. Cortesia do artista. Contém imagens originais de I Tagli Di Medea (1969), de Pier Paolo Pasolini. Cortesia da Cinemazero.

Em conversa

Stephan Crasneanscki e Patti Smith

Stephan Crasneanscki: Correspondência (2017– em curso) começou, na verdade, como longas conversas enquanto passeávamos pela rua; uma espécie de flânerie por várias cidades onde acabámos por passar tempo juntos. Essas discussões inspiraram outras viagens, porque quando começo um álbum novo, normalmente ainda não tenho uma ideia muito clara do que procuro. Muitas vezes prefiro ir a um lugar e deixar que o som dite o meu tempo e o meu espaço. Vou com o ouvido aberto porque penso que é preciso estar presente para gravar. Ouvir o que a faixa se tornará é frequentemente determinado pelo som. Não sou músico, venho do campo da gravação e da arte sonora, e por isso permito que o som determine o desenvolvimento das faixas. Às vezes procuro um determinado som, mas outro surge, e a sobreposição cria musicalidade, potencial, uma direção.

Patti Smith: Não há praticamente lugar onde não vás. Subiste às montanhas sagradas da Índia e penetraste nas cavernas do México. Queríamos fazer uma obra sobre Chernobil, e fizemo-la, dedicando-a a todas as crianças que sofreram de cancro no pâncreas devido à radiação e, infelizmente, não viveram muito tempo. Queríamos que fossem lembradas. Foste não apenas à floresta, mas também ao reator — depois de obteres uma autorização especial — para gravar a atmosfera sonora de um lugar, desde o reator até à floresta, onde os frutos até podem ser belos e as flores desabrocham, mas são todos radioativos. Já foste a lugares para trazer de volta o som de uma folha a cair, ou o som do vento em Harar, ou o som do vento numa caverna no México, que é diferente de qualquer outro vento. E essas experiências inspiram-me a improvisar ou a escrever os poemas e monólogos.

SC: É verdade, apenas o som de uma folha a cair pode, de repente, despertar uma possibilidade completamente nova para o rumo de uma faixa. Em Chernobil, por exemplo, apercebi-me de que, quando foi construída, ainda no tempo da URSS, era uma cidade muito próspera onde se concentravam as melhores escolas de piano. Há centenas de pianos espalhados por toda a cidade que apodreceram; a radiação foi consumindo-os. As faixas acabaram por ser compostas a partir de todas essas notas e sons que os pianos ainda produziam quando lá estávamos. Muitas vezes encaro o meu trabalho de gravação de campo como o desvelar de uma paisagem invisível: no momento em que a gravas, ela manifesta-se. E penso que o que fazes na nossa experiência no estúdio é precisamente conseguir manifestar os espíritos que o som contém. O som guarda a memória de um poeta ou de crianças, e é aí que entras com a tua poesia — estás a manifestar, a dar vida, no fundo.

PS: Ofereces-me paisagens sonoras. Tudo isto pode soar abstrato, mas cria uma atmosfera e quase uma Terra onde posso caminhar na minha mente. Posso percorrer esses lugares ou sentir os espíritos desses lugares porque, nesta fase da minha vida, já não consigo fazer viagens difíceis. Tu sobes a lugares traiçoeiros, perigosos, às montanhas. E eu gosto de estar perto do oceano ou a sonhar acordada à secretária. Tu és o viajante físico e eu torno-me a viajante mental através daquilo que me ofereces com tanta generosidade, sejam rochas sagradas a chocarem umas com as outras ou sinos de igreja a tocar. É algo de muito belo porque assim posso viajar para todo o lado. Não preciso de comprar bilhete, nem de ir para o aeroporto, basta ouvir e deixar-me levar. Escutar-nos uns aos outros é a grande chave. É aqui que tu sobressais entre nós; eu não sou a melhor ouvinte. Tu és um ouvinte maravilhoso porque consegues ouvir o simples: “ah, essas pedras a bater umas nas outras é um som que nunca tinha ouvido, apesar de ter andado pelo mundo inteiro a caminhar sobre diferentes pedras.” O som dos passos de Jean-Luc Godard na neve, que tens gravado, todas essas coisas são preciosas. Ouvir é uma forma fundamental de escutar o nosso eu interior, o nosso sangue, porque tudo aquilo que os nossos antepassados sabiam está inscrito no nosso sangue.

SC: Escutar... Como já disse antes, escutar é um ato de presença. E aquilo que mais noto quando estou a gravar é que isso me exige estar presente. Quando estamos no tempo presente, a sincronicidade acontece e o mundo revela-se. Na maior parte do tempo somos sequestrados pela nossa mente ou pelas nossas conversas ou pela voz dos outros. A gravação de campo é uma prática de presença. É um processo muito lento. Às vezes, pensamos que há algo ali e depois, afinal não, vamos para outro lugar. Progressivamente, camada após camada, tudo se vai solidificando e, de certa forma, cristalizando. Essas pequenas pedras ou verdades ou pequenas claridades ou pequenos peradam... surgem durante o percurso e, com o tempo, a obra vai sendo criada lentamente, tanto através das nossas conversas como nos diferentes estúdios por onde passamos, em Londres, Berlim, Nova Iorque, Paris. Voltamos atrás e, por vezes, refazes tudo do início. Há peças que refizemos várias vezes ao longo de muitos anos e, de repente, algo acontece e então é isso: sabemos que funciona, que está ali. Não temos um objetivo pré-definido; é no próprio processo que tudo se torna claro.

Stephan Crasneanscki, Cry of the Lost, 2025. Fotograma do filme. Imagens e visualização de dados da Territorial Agency. Cortesia do artista.

PS: É também um processo de descoberta através da improvisação e da sintonização. Gosto muito da história de Medeia em que trabalhámos. Contaste-me coisas que eu não sabia, estudei e li livros e peças de teatro, e contemplei Medea (2025). Foste até à região do mundo dela e, quando ouvi esse material, não tinha nenhum texto. Entrei simplesmente no estúdio, sentei-me ao microfone e ouvi todos os sons que trouxeste do seu mundo: das montanhas, do mar, de todos os lugares que ressoavam com a sua história. Isso arrancou de mim um único e longo monólogo, como se ela própria contasse toda a sua vida. Não acredito que alguma vez tivesse escrito aquilo, mas tenho muito orgulho no trabalho. Essas gravações de campo atraíram-me para o mundo físico dela e, assim, conseguimos fundir o mundo físico com o espiritual. Tenho pensado também que estas gravações funcionam como cortes bruscos, porque nasceram da improvisação e avançam ao ritmo do meu próprio pensamento. Mesmo no relato de Medeia, há momentos em que a narrativa não é linear ou não preenche todo o espaço. Quando trabalho com texto ou performance ao vivo, por vezes elaboro um pouco mais para maior clareza. E o que os filmes em que trabalhámos fazem por mim é precisamente preencher esses espaços, dando uma noção do todo. É isso que uma banda sonora faz no cinema: preenche o espaço e cria uma textura emocional ao serviço das imagens, dos atores, da tensão. Acho que a nossa Correspondência é uma banda sonora perfeita porque não conta tudo. Deixa espaço para o filme, que acrescenta uma substância adicional à narrativa.

SC: Acho interessante a ideia de não preencher todo o espaço. Quando essas peças foram criadas, via-as como longas viagens por uma paisagem invisível, deixando espaço para que o som se desenvolvesse. Seja o som do mar distante ou a tua voz, tudo respira em conjunto e deixa espaço para que a imagem encontre o seu ritmo dentro do som à deriva. Quando ouço essas faixas de olhos fechados, consigo ver essas paisagens. Só mais tarde, quando começamos a recolher imagens, ou quando vou filmar essas paisagens, é que a imagem acaba por se render, finalmente, aos elementos sonoros.

PS: Sinto que fazemos o nosso trabalho de forma crua. Entramos simplesmente com uma epifania e criamos a partir do nada. É o culminar dos nossos dois campos de trabalho e, ainda assim, permanece cru. Depois, através destes filmes, o trabalho recebe vestes de ouro e deixa de ser cru. Há beleza em permanecer cru — é isso que os discos são —, mas também me dá grande alegria vê-lo ganhar essas vestes.

SC: É bem verdade, tal como caminhar nu por uma terra desconhecida. No nosso processo, é o som que dita aquilo que a imagem será e tens razão quando dizes que começamos nus e só depois nos vestimos. Na instalação de Correspondência, o cruzamento visual de oito ecrãs voltados uns para os outros é, para mim, uma metáfora do processo de estúdio: todas as suas possibilidades e infinitas camadas de significado. A interação entre todos estes elementos dá origem a encontros interessantes e inesperados. A correspondência é poderosa; destino e tragédia estão entrelaçados e, de certa forma, intensificam-se mutuamente. Penso, por exemplo, no canhão sísmico de Cry of the Lost (2025) e no gelo que derrete e racha em Prince of Anarchy (2025). Complementam-se através dessa sensação absoluta de catástrofe climática inevitável na qual já nos lançamos.

PS: É curioso, porque no fundo é o mesmo, apesar de Prince of Anarchy ter uma atmosfera muito oitocentista e Cry of the Lost ser profundamente moderno. Ainda assim falam exatamente da mesma coisa: da perda da família e daqueles que amamos, da perda do nosso ambiente, do gelo, do silêncio belo do mar.

SC: Prince of Anarchy (Príncipe da Anarquia) era o nome atribuído a Peter Prokofiev, que foi o primeiro a perceber verdadeiramente o degelo, primeiro enquanto geólogo, mais tarde como anarquista. Toda a sua filosofia foi profundamente influenciada pelas comunidades indígenas da Sibéria. A exploração petrolífera em águas profundas está na origem tanto do esgotamento dos combustíveis fósseis como do degelo polar. Algo semelhante acontece entre duas projeções na exposição: de um lado, a extinção em massa de animais; do outro, os incêndios florestais, colocados frente a frente, com a tua voz no centro a nomear cada floresta que queimámos, cada espécie que se extinguiu desde o teu nascimento. É um confronto direto com a loucura em que vivemos: a tragédia que se desenrola.

PS: Ouvir todos os animais e olhar para o fogo... São apenas os nomes dos animais, mas eles já não existem, são cinzas, extintos para sempre. E olhar para os animais enquanto se escuta o fogo acaba por ser a mesma coisa. É uma ladainha daquilo que desapareceu, milhões e milhões de hectares de floresta e todos os seres que os habitavam... Todas essas espécies magníficas, que outrora teriam sido salvas na arca, já não estão entre nós. É como se, na Bíblia, alguém tivesse entrado na Arca de Noé com uma metralhadora e, num acesso de fúria, tivesse dizimado um quarto da arca, espécie após espécie, antes mesmo de poder começar um novo mundo.

SC: Uma “ladainha do que desapareceu.”

PS: Ou melhor, “ladainha dos que partiram.” 

Stephan Crasneanscki, Prince of Anarchy, 2025. Fotograma do filme. Coretesia do artista.

SC: Enquanto conversamos hoje em Bogotá, o Canadá atravessa os maiores incêndios florestais da sua história. É tão doloroso. 

PS: Ainda arde... “Still” (ainda) é uma palavra belíssima em inglês, porque carrega vários significados ao mesmo tempo: significa estar parado, quietude, mas também algo que continua a acontecer. E é isso que temos, um mundo em chamas, o degelo das regiões polares... Para mim, Prince of Anarchy fala também de uma “ciência negada.” Há décadas que os cientistas nos avisam e nós limitamo-nos a virar-lhes as costas; é tão egocêntrico.

SC: Tornámo-nos vampiros dos combustíveis fósseis.

PS: Em nome do petróleo, em nome da gasolina. Em nome da destruição do planeta, em nome da descida aos fundos do mar para aniquilar o oceano e a vida que nele existe. Tudo isto para fazer arder a Terra. E, ainda assim, no meio de tudo, continua a existir a arte. Não estamos aqui apenas para destruir. Mesmo quando caminhamos para a nossa própria ruína, continuamos também a criar. 

SC: A arte também é uma prática curativa. É um caminho para nos tornarmos melhores seres humanos, mais empáticos, atenciosos e sensíveis. Porque não há outra saída, ou seguimos este caminho ou confrontamo-nos com a nossa própria extinção.

PS: Tudo o que nos faça tornar seres humanos melhores, seja através da arte ou do ativismo. Precisamos de empatia pelos animais, pelas criaturas do mar, pela terra, pela natureza. O artista não é necessariamente empático com os seres humanos, porque cria coisas materiais para os inspirar e confortar. Precisamos de todo o espetro de seres humanos empáticos e os artistas ocupam o seu lugar dentro desse universo. Greta Thunberg, Jane Goodall, Temple Grandin, Gerhard Richter, todos têm o seu lugar neste espetro. Precisamos de todos: do Papa Francisco, do Dalai Lama, do cidadão comum. Ontem vi um senhor idoso na rua do meu hotel. Estava sozinho, a apanhar pedaços de papel e plástico, a limpar a rua dos detritos. Talvez fosse o seu trabalho, mas aquele gesto... Quando terminou, fiquei a observá-lo. Ele olhou para trás e tudo parecia tão bonito. Uma pessoa faz a diferença para que aquilo não pareça um monte de lixo.

SC: É isso que mais ouço sobre as nossas performances, que provocam emoção. Derrubam a barreira em redor do coração de todos. Porque é essa incapacidade de aceder à empatia que nos está a destruir. Essa desconexão de nós mesmos é o que nos trouxe à situação em que nos encontramos. 

PS: Sim, não somos empáticos — se vives num clima agradável e tudo corre bem, não te preocupas verdadeiramente com o que se passa na Argélia, no Vale da Morte, no oceano da Flórida ou nas ilhas gregas. Olhas para os jornais e pensas: “Oh, que terrível, mas não está a acontecer aqui.” Quando fui à Escandinávia em digressão, no início de julho, para fugir do calor do verão europeu, estavam 34 graus Celsius em Oslo. Houve uma vaga de calor em Svalbard, perto do Polo Norte. Trouxemos casacos, camisolas e chapéus de pele para tocar em Svalbard e não precisámos de nada disso.

SC: Enviaste-me fotografias de um banco de sementes numa caverna em Svalbard. Pensei imediatamente na semente da vida e na ideia da persistência da vida, que é também um dos nossos pontos fortes enquanto humanos, apesar das nossas tendências destrutivas. 

PS: Eles têm cerca de 1,2 milhões de sementes nesse banco. Mas a preocupação deles é que o permafrost está a derreter. Está tudo enterrado. Se começar a ficar pastoso e encharcado — e eu vi parte disso; é até bonito enquanto derrete, parece que brilha — torna-se perigoso. É o local mais próximo do Polo Norte e estão preocupados com o banco de sementes devido à falta de gelo. O que vai acontecer? É como olhar para uns cubos de gelo num copo de cocktail. Um dia, esses cubos de gelo serão tão valiosos como diamantes. Mas, pensando em todos estes lugares maravilhosos e no nosso trabalho em conjunto, as gravações de campo mudaram a minha vida. Já improvisei com músicas de rock and roll ou três acordes, com sons de heavy metal ou guitarra em feedback, mas as impressões sonoras de lugares sagrados despertaram coisas completamente novas em mim. Por isso, sinto-me grata.

Esta conversa decorreu em 2023, no âmbito de Correspondência, um projeto colaborativo em curso de Soundwalk Collective e de Patti Smith.

Soundwalk Collective e Patti Smith

Soundwalk Collective é uma plataforma contemporânea de artes sonoras fundada pelo artista Stephan Crasneanscki e pelo produtor Simone Merli. Trabalhando com uma constelação rotativa de artistas e músicos, desenvolvem projetos sonoros específicos para locais e contextos, através dos quais exploram temas conceptuais, literários ou artísticos.

Evoluindo de forma multidisciplinar, o Soundwalk Collective tem cultivado colaborações criativas de longa duração com a música Patti Smith, o falecido realizador Jean-Luc Godard, a fotógrafa Nan Goldin, a coreógrafa Sasha Waltz e a atriz e cantora Charlotte Gainsbourg, entre outros. A sua prática explora o potencial narrativo do som em instalações artísticas, dança, música e cinema.

Uma abordagem artística singular ao som liga as diferentes formas de trabalho do Soundwalk Collective. Seja através da composição original ou do uso de gravações de arquivo, tratam o som como um material ao mesmo tempo táctil e poético. Esta abordagem permite-lhes criar narrativas em camadas que abordam ideias como a memória, o tempo, o amor e a perda.

Exposição