Sétima Trienal de Arquitectura de Lisboa

Um futuro leve

Xenobôs. Fonte: Popular Science. Crédito: Douglas Blackiston e Sam Kriegman.

Em 1747, pouco depois de as tecnologias mecânicas movidas a vapor terem começado a revolucionar o mundo conhecido, Julien Offray de La Mettrie escreveu L'Homme Machine (O Homem é uma Máquina), um tratado que explora a ideia de que o corpo humano é uma engrenagem mecânica extremamente complexa.1 Quase dois séculos mais tarde, em 1972, no início de uma nova era cibernética, o biólogo Efim Liberman escreveu “A Célula como Computador Molecular”, um artigo que propunha abordar a vida como um sistema de armazenamento e processamento de informação.2 Ao longo da história, a forma como compreendemos a tecnologia serviu de modelo para pensar o ser humano e o mundo vivo. Este dinamismo tem implicações profundas na maneira como nos relacionamos uns com os outros e com o mundo que nos rodeia.

A nossa noção do que é “tecnologia” também depende da perspectiva. Tentar definir de forma geral os artefactos tecnológicos sem ter em conta o seu contexto material, cultural e histórico é, por isso, difícil e provavelmente até inútil: circunstâncias diferentes dão origem a ideias e paradigmas dominantes distintos sobre o que significa “tecnologia”. Yuk Hui propôs o conceito de “ecologia da tecnologia” como forma de criticar as visões monoculturais e universalistas do progresso tecnológico.3 Além disso, as tecnologias não são apenas moldadas pelo contexto cultural humano, mas são elas próprias agentes culturais e materiais por direito próprio. Abordar a tecnologia como um fenómeno ecológico exige que a deixemos de ver como simples produto passivo do engenho humano, passando a encará-la como algo com capacidade de evolução autónoma, que estabelece relações estratificadas e não lineares com os seus companheiros humanos. Tal como os ecossistemas naturais, também os ecossistemas tecnológicos dependem da complexidade e da diversidade para prosperar.

A ideia de uma “ecologia da tecnologia” pode parecer contraditória numa época em que o crescimento de infra-estruturas globais, extractivistas e sedentas de recursos (aquilo a que Peter Haff chama a “tecnosfera”) parece conduzir-nos invariavelmente para o colapso ecológico.4 No entanto, esta visão distópica assenta numa compreensão redutora do que a tecnologia poderia ser —- e, em certa medida, já é. Muitas tecnologias contemporâneas estão a começar a escapar aos limites rígidos dos paradigmas que as antecederam. Algo de inesperado e sem precedentes desde a revolução industrial está a acontecer hoje: as nossas tecnologias estão a tornar-se mais leves.

Todos sabemos, de forma intuitiva, o que é a leveza, mas defini-la é surpreendentemente difícil. A leveza tende a ser mais uma experiência do que uma propriedade intrínseca das coisas, algo que surge no encontro entre dois corpos. Só conseguimos dizer que algo é leve depois de interagirmos com esse objecto, de o tocarmos e o transformarmos. Um pedaço de barro leve/mole/maleável é indistinguível de um pedaço seco e duro até pressionarmos a sua superfície com a mão e sentirmos como reage à pressão dos nossos dedos. A fenomenologia da leveza resulta da combinação de fluidez e plasticidade.  A fluidez é o processo através do qual os materiais alteram a sua estrutura ao longo do tempo e do espaço, desconstruindo e reconstruindo continuamente os seus limites. A plasticidade, por sua vez, é o processo pelo qual os materiais retêm informação do mundo que os rodeia, tal como um copo mantém indefinidamente a forma para a qual foi moldado. A leveza, uma combinação de fluidez e plasticidade, permite que os corpos cedam ao mundo enquanto aprendem continuamente com ele.

As tecnologias leves emergentes tendem a basear-se em materiais biológicos, renováveis e degradáveis, e destacam-se pela sua capacidade inédita de trabalhar em sinergia com processos espontâneos de auto-organização e regeneração. Em contraste com a visão tradicional da tecnologia como sistema baseado na exploração intensiva da natureza — que esgota recursos e energia para funcionar — a leveza sugere uma nova possibilidade de harmonia entre o sintético e o natural.

Biocomputador neuronal. Fonte: New Atlas. Crédito: Cortical Labs.

Histórias de Leveza

Pode ser tentador pensar que a leveza é uma propriedade inerente a materiais específicos. No entanto, a dureza e a leveza são, muitas vezes, mais reflexo da forma como nos relacionamos com os materiais do que estados físicos fixos. Toda a matéria é, até certo ponto e em determinada escala, leve. A madeira, por exemplo — usada há milénios como material duro, cortada, moldada e transformada em artefactos —- é também um material profundamente leve. Na região de Meghalaya, na Índia, populações indígenas constroem pontes de madeira viva entrelaçando as raízes aéreas das figueiras Ficus. Estas pontes crescem com o tempo, regenerando-se e curando-se a si próprias. Até a rocha, símbolo máximo dos materiais duros, é leve — apenas não à escala que os humanos a experimentam. Ao longo de milénios, os minerais formam cristais, as rochas desintegram-se em areia e os estratos dobram-se sob a pressão dos movimentos tectónicos.

A relação da cultura ocidental com a leveza tem sido ambígua. Aprendemos a rejeitá-la como um sinal de fraqueza, enquanto enaltecemos a dureza como um símbolo de força. Como Luce Irigaray defendeu de forma incisiva, esta rejeição cultural da leveza é tanto uma questão física como metafísica: a dureza permitiu-nos, na prática e na teoria, exercer controlo sobre a imprevisibilidade fundamental dos corpos.5 Enquanto os materiais leves escapam a limites rígidos e resistem à representação estática, os corpos duros são imutáveis: a sua identidade é fixa e os seus limites nunca são postos em causa. O nosso preconceito cultural contra a leveza é evidente na forma como concebemos o passado, concentrando-nos quase exclusivamente na importância dos materiais duros, como a pedra e os metais, na construção da identidade humana colectiva. No entanto, os materiais leves têm sido fundamentais para o desenvolvimento das culturas humanas. A antropóloga Elizabeth Wayland Barber sublinha o papel fundamental dos têxteis na evolução das primeiras comunidades humanas, destacando os preconceitos focados na masculinidade que levaram muitos a ignorar a sua relevância.6 A arqueóloga Linda Hurcombe, por sua vez, cunhou a expressão “maioria ausente” para designar os artefactos leves, orgânicos e perecíveis que foram centrais nas culturas pré-históricas, mas que foram em grande parte destruídos ou esquecidos.7

Embora raramente contada, há uma leveza ancestral ainda presente em muitas das tecnologias mais transformadoras da Humanidade. Na Mesopotâmia, o surgimento e a difusão da escrita só foram possíveis graças à fluidez e plasticidade da argila, um recurso material abundante na planície aluvial entre os rios Tigre e Eufrates. Há quem defenda que também a arquitectura se baseia na herança esquecida dos materiais leves. Nos seus escritos sobre a origem da arquitectura, Gottfried Semper propõe que as formas e os motivos arquitectónicos que evoluíram ao longo do tempo têm as suas raízes na leveza das nossas casas ancestrais. Foram o tecido e o fio maleáveis, e não a pedra ou o tijolo duros, os primeiros materiais a proteger-nos do mundo exterior e a moldar os nossos ambientes primitivos.8 Também no centro das tecnologias digitais actuais encontramos materiais leves: o tear Jacquard inspirou o primeiro protótipo de computador concebido por Ada Lovelace. Como afirma Sadie Plant, “o fio não é nem metafórico nem literal, mas simplesmente material, um entrelaçado de linhas que se enrolam e desenrolam ao longo da história da computação, da tecnologia, das ciências e das artes.”9

Robô biohíbrido. Fonte: The Conversation. Crédito: Karaghen Hudson e Michael Rosnach, CC BY-ND.

Soft Technologies

A leveza não é apenas uma parte fundamental do nosso passado; é também uma componente essencial do nosso futuro. Ao longo da última década, materiais leves, naturais e sintéticos tornaram-se cada vez mais relevantes nas tecnologias emergentes, desafiando a visão limitada que associa tecnologia exclusivamente a máquinas mecânicas feitas de porcas e parafusos. Em vez de dependerem de estruturas rígidas compostas por peças duras, as tecnologias leves integram materiais capazes de perceber e responder ao ambiente de forma flexível. Basta pensarmos nos robôs. Os robôs são o arquétipo das máquinas autónomas e a forma como os imaginamos e os construímos revela muito sobre a nossa cultura tecnológica. Ao longo do século XX, os robôs foram concebidos como estruturas electromecânicas quase antropomórficas, mas esta imagem tem vindo a mudar. Os robôs leves são fabricados a partir de materiais flexíveis e deformáveis, prescindindo de articulações, actuadores ou outros componentes electromecânicos; as suas formas e movimentos são muitas vezes inspirados em organismos invertebrados e não humanos. O Octobot, um robô com forma de polvo impresso em silicone flexível, é o primeiro robô inteiramente leve: desprovido da mecânica rígida dos modelos anteriores, os seus movimentos resultam de uma reacção química entre dois líquidos. Apesar do Octobot ainda representar uma forma primitiva do que as tecnologias leves podem vir a ser — com comportamentos pré-programados e um corpo indiferente ao mundo que o rodeia, os novos materiais leves estão a demonstrar uma capacidade crescente de percepção e adaptação, reagindo à luz, a campos eléctricos, a variações de temperatura e à presença de químicos à sua volta.10

Todos os organismos vivos são leves. Nós, humanos, somos corpos compostos maioritariamente por água, auto-organizados, capazes de percepção e aprendizagem. Ser leve é também estar aberto a novos encontros: não ter um limite fixo, mas poroso e aberto à negociação. A leveza do ser vivo manifesta-se na nossa capacidade de criar novas relações através dos limiares da pele, da membrana celular e da herança genética. Lynn Margulis provou que a simbiose — a convivência entre organismos diferentes — é um dos principais motores de evolução.11 Os encontros simbióticos não se limitam ao domínio dos seres vivos, também podem ocorrer entre a natureza e a tecnologia. O cientista John Greenman propôs o termo SymBot (abreviatura de “robô simbiótico”) para se referir a tecnologias cujo funcionamento depende da cooperação entre componentes artificiais e vivos. Os SymBots representam “a integração benéfica entre uma parte viva e uma parte mecatrónica, reunidas numa plataforma robótica. Um SymBot é, assim, um robô que pode vir a demonstrar simbiose artificial, isto é, uma associação proto-cooperativa entre duas entidades.”12

Xenobôs. Fonte: Technology Review. Crédito: Douglas Blackiston e Sam Kriegman.

Expandindo a visão de Margulis sobre a evolução por simbiogénese, os SymBots representam um futuro especulativo em que materiais sintéticos e vivos terão co-evoluído, dando origem a uma diversidade de organismos híbridos. Já há investigadores a integrar componentes vivos em artefactos tecnológicos de maior escala, criando um grau de intimidade sem precedentes entre matéria viva e sintética. Esta nova relação simbiótica está a ramificar-se em múltiplas direcções. Os robôs bio-híbridos, por exemplo, combinam materiais sintéticos à base de água, conhecidos como hidrogéis, com tecido vivo. As células do músculo cardíaco animal podem crescer para produzir tecido que bate de forma sincronizada e autónoma, fornecendo a energia necessária para o movimento do robô. A simbiose entre a vida e a tecnologia pode também resultar de um entrelaçamento da computação com a matéria biológica. Os xenobots são organismos sintéticos microscópicos, compostos por células da pele e do coração de rã, cuja estrutura evolui in silico com o apoio da inteligência artificial. São capazes de nadar, transportar pequenos objectos e, em determinadas condições, até criar pequenas réplicas de si próprios.13 A sua capacidade de agir de forma autónoma demonstra que as células e os computadores, os organismos e as tecnologias, podem auto-organizar-se e cooperar de formas que vão muito além do que seria possível através da simples “programação” genética natural.

A leveza mantém uma relação profunda, ainda pouco explorada, com a senciência e a cognição. Quando sentimos o toque leve do barro na pele, também o barro nos “sente” — embora não no sentido antropomórfico ou neurológico que habitualmente associamos a esta palavra. Trata-se de um outro tipo de “sentimento”, mais primitivo, inconsciente, mas fundamental: a capacidade de reagir a um encontro com o mundo. Esta aptidão para perceber e adaptar-se tem fortes implicações para o desenvolvimento de tecnologias sencientes. O neurobiólogo W. Tecumseh Fitch introduziu o conceito de “nano-intencionalidade” para sugerir que toda a inteligência, natural ou artificial, deve emergir de componentes materiais adaptáveis capazes de percepção e memória.14 Segundo Fitch, é precisamente a ausência de nano-intencionalidade que impede as nossas tecnologias actuais de possuírem uma cognição verdadeira. “A grande diferença entre uma célula e um transístor num chip de silício”, afirma, “é que a célula consegue modificar-se de forma autónoma e flexível consoante as circunstâncias, algo que o transístor não consegue fazer.” Assim, qualquer IA senciente deve basear-se na nano-intencionalidade, que está dependente de substratos materiais leves, capazes de transformação e memória.

Um dos desenvolvimentos mais recentes no sentido da nano-intencionalidade na inteligência artificial é a evolução do “wetware”: uma tecnologia emergente que utiliza neurónios vivos, em vez de chips de silício, como base para a computação. Embora ainda numa fase muito inicial, estes sistemas de computação biológica já podem ser treinados para jogar vídeojogos simples, através de estímulos eléctricos ou químicos que lhes são fornecidos em tempo real, com base na sua actividade neural. Em comparação com os computadores tradicionais, baseados em silício, os computadores wetware são, pelo menos em teoria, exponencialmente mais eficazes no armazenamento, processamento e acesso à informação, consumindo muito menos energia. Para além de representar uma abordagem mais sustentável à computação, o wetware demonstra que a computação não tem de estar limitada ao hardware de silício: substratos materiais mais leves podem expandir e enriquecer a própria definição de “inteligência artificial.”

Biocomputador de organoide cerebral. Fonte: New Atlas. Crédito: Final Spark.

Naturezas leves

Embora o desenvolvimento de tecnologias leves e a procura de uma “ecologia da tecnologia” assentem na ideia de um futuro sustentável e simbiótico, esta necessidade contrasta com a realidade das actuais infra-estruturas tecnológicas globais. Peter Haff defende que a tecnosfera, ela própria um sistema tecnológico autónomo de grande escala, se expande através da apropriação massiva de energia e recursos do ambiente, ignorando a sobrevivência do que a rodeia, seja humano ou não humano.15 Embora o crescimento de infra-estruturas tecnológicas globais e exploradoras seja preocupante, pensar a tecnologia apenas como um parasita insaciável, que se alimenta do mundo à sua volta, é uma narrativa redutora e desencorajadora. Ignora tanto o papel activo que temos em moldar o nosso futuro tecnológico, como a capacidade que a própria tecnologia tem de desafiar as expectativas demasiado humanas que projectamos sobre ela. A verdade é que sabemos muito pouco sobre o futuro da tecnologia. A sua evolução não se coaduna com as narrativas lineares de progresso que nós, humanos, tantas vezes lhe queremos impor.

A biologia evolutiva já nos mostrou que a árvore da vida não é, na verdade, uma árvore, mas um sistema emaranhado de raízes que se ramificam em várias direcções. Do mesmo modo, a evolução tecnológica não é uma história linear nem ascendente, mas um processo sinuoso, muitas vezes imprevisível e dependente do acaso, que conduz à diversidade e à divergência. Tal como na biologia, a natureza não determinista da evolução tecnológica está intimamente ligada à sua leveza: à sua capacidade de ser moldada pelo mundo, de aprender com ele e de se associar a outros organismos, criando novos conjuntos simbióticos. Compreender e praticar a leveza pode ajudar a curar a nossa relação com a tecnologia e, por sua vez, a relação da tecnologia com o mundo. Como escreve James Brdile, “uma ecologia da tecnologia preocupa-se com as inter-relações entre a tecnologia e o mundo, o seu significado e materialidade, o seu impacto e usos, para além do simples facto quotidiano e determinista da sua própria existência.”16

A leveza é uma forma de compreender como os artefactos tecnológicos, à semelhança dos organismos biológicos, se diferenciam em nichos específicos e derivam em formas sempre abertas e não-deterministas. Em vez de evoluírem em oposição à natureza, ou de se limitarem a explorar os seus recursos, as tecnologias leves têm a capacidade de expandir as possibilidades do natural em novas direcções. São, nas palavras de Luciana Parisi, nem naturais nem artificiais, mas hipernaturais. “Estas máquinas”, escreve Parisi, “emergem de um plano imanente da natureza — a hipernatureza — como a composição de intensidades livres, populações moleculares autónomas de fluxos mas coexistentes com os processos de organização da matéria.”17 Presenciar esta transformação do hipernatural deve servir como um alerta para questionarmos as narrativas neo-darwinistas que colocam o domínio e a apropriação de recursos no centro de toda a evolução complexa. Na tecnologia, tal como na biologia, é muitas vezes a simbiose, e não a competição, que impulsiona o aparecimento do novo.

A forma como vemos o ser humano e a forma como vemos a tecnologia sempre se reflectiram mutuamente. A maneira como imaginamos os objectos tecnológicos espelha muitas vezes a nossa própria compreensão de quem somos, ou daquilo em que ambicionamos tornar-nos. O desenvolvimento inicial das tecnologias mecânicas permitiu uma mecanização simultânea da própria ideia de vida, em sintonia com as exigências dos primórdios da era industrial. Mais tarde, com a ascensão da cibernética e a informação na linha da frente das novas tecnologias, os biólogos começaram a identificar o “código” genético com o núcleo essencial do organismo, interpretando os processos biológicos como mecanismos orientados pela informação. À medida que os nossos paradigmas para compreender a tecnologia se tornam mais leves, o mesmo acontece com as imagens que construímos de nós mesmos.

A fluidez e a plasticidade estão a ganhar cada vez mais relevo no discurso científico e social sobre a identidade humana. O reducionismo genético — a ideia de que o nosso destino biológico está inteiramente inscrito no ADN — é hoje amplamente reconhecido como uma simplificação exagerada da complexa relação entre o corpo, a herança e o ambiente. Do mesmo modo, a nossa compreensão da cognição está a tornar-se mais leve: os estudos sobre neuroplasticidade indicam que o cérebro tem a capacidade de se reorganizar estruturalmente em resposta ao meio que o rodeia. Também as noções de género e sexo se revelam cada vez mais como fenómenos complexos e não binários, sobretudo quando se sabe que quantidades relativamente pequenas de hormonas sintéticas podem anular a “programação” cromossómica.

Dentro e fora da tecnologia, a leveza desafia-nos a reconsiderar o que significa ter poder de decisão e controlo. Trata-se tanto de um desafio epistemológico como de uma questão política. Como podemos incentivar e promover a complexidade a múltiplas escalas? Como conseguimos conceber sistemas que sejam simultaneamente auto-sustentáveis e abertos ao mundo exterior? Qual o lugar da intencionalidade local, a pequena escala, no âmbito de uma inteligência colectiva mais ampla? Assente na fluidez, na plasticidade, na auto-organização e na descentralização, o paradigma da leveza revela a governação como um fenómeno estratificado e multi-escalar. Em contextos políticos como as cidades, a ênfase excessiva na tomada de decisões de cima para baixo tende a sufocar frequentemente a capacidade de acção a pequena escala e distribuída de comunidades humanas e não-humanas. Numa cidade “dura”, a sustentabilidade depende de intervenções verticais de grande escala, enquanto numa cidade “leve” as estruturas estratificadas e auto-organizadas abrem espaço a formas de micro-sustentabilidade distribuída — desde hortas urbanas de baixa tecnologia a materiais bio-híbridos de alta complexidade. À medida que as tecnologias evoluem em conjunto com os seus companheiros humanos, os diferentes paradigmas tecnológicos podem também encorajar novas formas de governação. Enquanto as infra-estruturas duras e centralizadas exigem hierarquias rígidas de gestores e controladores, as tecnologias leves prosperam em redes de produtores, curandeiros e cuidadores. Em vez de imporem resultados ou seguirem instruções cegamente, estas figuras criam condições para que surjam novas possibilidades e para que se fortaleçam mecanismos de resiliência.

Na tecnologia, na biologia e na sociedade, aproximamo-nos de uma “transição leve”. Já não entendemos a vida como uma simples engrenagem mecânica, nem como um sistema eficiente e lógico de gestão de fluxos de energia e matéria. Vemo-nos, antes, como estruturas materiais complexas e estratificadas, fluidas e plásticas, abertas e em constante fluxo, cuja sobrevivência depende de encontros entre mundos profundamente distintos.

Notas de Rodapé

  1. Julien Offray de la Mettrie, Man a Machine (Open Court, 1912), https://archive.org/details/manmachine0000lame/page/n7/mode/2up
  2. Efim Liberman, “Cell as a molecular computer (MCC),” Biofizika 17, no. 5 (1972): 932-943. For an overview of Liberman’s scientific work, see also S.V. Minina and N.E. Shklovskiy-Kordi, “Neuron quantum computers and a way to unification of science: A compendium of Efim Liberman’s scientific work,” BioSystems 217 (July 2022) 104684.
  3. Yuk Hui, “Machine and Ecology,” in Cybernetics for the 21st Century, Vol. I: Epistemological Reconstruction, ed. Yuk Hui (Hanart Press, 2024).
  4. Peter Haff, “Technology as a geological phenomenon: Implications for human well-being,” in A Stratigraphical Basis for the Anthropocene, ed. C. N. Waters et al., (Geological Society, London, 2013).
  5. Softness and fluidity are recurring themes in Luce Irigaray’s writings. For an overview of this topic, see Hanneke Canters and Grace M. Jantzen, Forever Fluid: A Reading of Luce Irigaray’s Elemental Passions (Manchester University Press, 2005).
  6. Elizabeth Wayland Barber, Women’s Work: The First 20,000 Years (W. W. Norton & Company, 1996).
  7. Linda Hurcombe, Archaeological Artefacts as Material Culture (Routledge, 2007).
  8. Gottfried Semper, The Four Elements of Architecture and Other Writings (Cambridge University Press, 1989).
  9. Sadie Plant, Zeros + Ones: Digital Women and the New Technoculture (Fourth Estate, 1998).
  10. See Laura Tripaldi, Parallel Minds: Discovering the Intelligence of Materials (Urbanomic, 2022).
  11. For an overview of the theory of symbiogenesis and its implications for science andecology, see Lynn Margulis, Symbiotic Planet. A New Look at Evolution (Basic Books, 1999).
  12. Ioannis A. Ieropoulos et al., “Energy and Metabolism,” in Living Machines. A Handbook of Research in Biomimetics and Biohybrid Systems, eds. Tony J. Prescott and Nathan Lepora (Oxford University Press, 2018), 62.
  13. See Philip Ball, “What on Earth Is a Xenobot?,” Aeon, August 30, 2022, https://aeon.co/essays/how-xenobots-reshape-our-understanding-of-genetics 
  14. W. Tecumseh Fitch, “Nano-intentionality: A Defense of Intrinsic Intentionality,” Biology & Philosophy 23 (2008):157–177.
  15. Haff, “Technology as a geological phenomenon.”
  16. James Bridle, Ways of Being: Animals, Plants Machines: The Search for a Planetary Intelligence, (Penguin, 2022). 
  17. Luciana Parisi, Abstract Sex. Philosophy, Bio-Technology, and the Mutations of Desire (Continuum, 2004), 36.